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A associação de jogos de combate com arcos musicais pode parecer curiosa ou mesmo arbitrária. Mas, para um capoeirista do século XXI, esse nexo é óbvio, pois o berimbau tornou-se símbolo da capoeira. O encontro do jogo de pernadas e cabeçadas com o arco musical deu-se no Brasil, mas poderia ter-se dado em alguma ilha do Caribe ou mesmo no arquipélago das Mascarenhas, no Oceano Índico. Pois, para todos esses lugares, africanos escravizados levaram suas lutas e seus instrumentos e recriaram práticas culturais negras. Em muitos desses territórios colonizados pelos europeus existem jogos de combate parecidos com a capoeira e arcos musicais parecidos com o berimbau. Tanto a história da África, quanto a de sua diáspora, oferecem muitas chaves para pensar o jogo da capoeira e sua orquestra liderada pelo berimbau.

Apresento nesse livro minhas tentativas de situar o jogo da capoeira e o berimbau num contexto mais amplo do Atlântico Negro, providenciando uma visão geral dos jogos de combate existentes no "Atlântico Negro" na época do tráfico transatlântico de escravizados, até o final do século XIX. Depois estudo com mais pormenores o caso do engolo no sul de Angola e do jogo de pau no Vale do Paraíba fluminense, baseado na história oral, em entrevistas com praticantes, construindo uma narrativa que parte do presente para alcançar o passado.

Em seguida o livro examina as fontes históricas sobre os arcos musicais no Atlântico Sul antes dos primeiros registros sonoros, na década de 1930. Mostra que vários arcos musicais vieram da África e foram tocados no Brasil. Ao entender melhor esse processo complexo, conseguimos uma compreensão mais profunda da história da capoeira e da formação da cultura popular de matriz africana no Brasil.

Matthias Röhrig Assunção é professor titular emérito de História na Universidade de Essex, Inglaterra. Autor de trabalhos sobre a história do Maranhão, cultura popular e capoeira, ele coordena o website capoeirahistory.

 
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