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O Cortiço é a verdade nua e crua do Brasil que emerge não das florestas virgens nem das serras azuladas, mas do lamaçal das cidades, do suor das fábricas, do fermento humano das habitações colectivas onde o sonho de civilização se desfaz em febre, cobiça e instinto. Publicado em 1890, no crepúsculo do Império e na aurora da República, este romance fundador do naturalismo brasileiro é um fresco social de violência telúrica, onde as personagens — portugueses ambiciosos, negros recém-libertos, mulatos ressentidos, imigrantes desesperados — se agitam como moléculas num organismo doente, movidas por forças que lhes escapam: o dinheiro, o desejo, a disputa pelo espaço e pela sobrevivência.
Ao centro desta fauna humana, ergue-se a figura trágica de João Romão, o português de origem humilde que, à força de exploração e astúcia, edifica uma fortuna sobre o espólio dos outros, e de Bertoleza, a sua companheira negra, cujo trabalho e sacrifício são a verdadeira pedra angular daquele império provisório. Em torno deles, pulsa o cortiço como um organismo vivo — que respira, fede, ama, odiaia e se devora a si mesmo — num ciclo de ascensão e queda que o romance descreve com um realismo de tal modo minucioso que a própria linguagem parece contagiada pela matéria que narra: áspera, carnal, vertiginosa, sem concessões ao lirismo ou à piedade.
Aluísio de Azevedo, com o seu olhar de anatomista e a sua pena de cronista impiedoso, não nos oferece uma história de redenção nem de consolo. Oferece-nos, isso sim, um diagnóstico implacável do Brasil urbano e mestiço que a Abolição e a República haviam descoberto, mas ainda não sabiam nomear. O Cortiço é, por isso, não apenas um romance de transição entre dois séculos, mas um espelho que, mesmo hoje, nos devolve uma imagem incómoda e perturbadoramente familiar: a da nossa modernidade inacabada, onde o progresso e a barbárie coabitam no mesmo quarteirão.