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A história de Dalto Proença não começa no dia em que ele nasceu. Começa no casamento arranjado dos seus pais — ela, uma menina de dezesseis anos entregue ao altar pela vontade do pai; ele, um homem de vinte e seis que não conhecia a noiva antes da véspera do "sim". Foi desse contrato entre famílias, selado no interior paranaense dos anos 1970, que nasceu o rascunho de uma vida.
Em 1977, a família migrou para o Norte do Brasil, atraída pela promessa de terras férteis e horizontes abertos. O pai desbravou a mata amazônica com machado e determinação, convicto de que a prosperidade estava escondida sob o verde fechado da floresta. E o filho que nasceria naquele cenário — às duas da manhã, sob uma lua cheia, nos braços solitários da mãe enquanto o pai estava na cidade — chegaria ao mundo já marcado por uma contradição fundamental: filho de um homem que media tudo pela dureza, mas dotado de uma sensibilidade que a lâmina do facão jamais conseguiria cortar.
A cumeeira — a parte mais alta do telhado da casa de madeira — era o refúgio do menino. De lá, ele observava a floresta, o horizonte e o movimento do mundo sem ser visto. Era o único lugar onde a vigilância dos adultos não chegava, onde ele podia ser apenas o que era.
A avó foi o seu grande amor. Com ela, aprendeu que o amor não precisa de explicação e que a coragem de ser diferente é o maior presente que alguém pode receber. Quando ela partiu, deixou uma profecia: "Quando eu não estiver mais aqui, não aceite o que não é certo."
Com dezoito anos, duas sacolas e essa frase guardada no peito, Dalto partiu para São Paulo. Entre fogões industriais e esquinas apressadas, descobriu que as mãos que sabiam capinar a terra também sabiam criar sabores. Que o menino que se escondia na cumeeira podia, finalmente, ser visto por inteiro.
Escrito com a honestidade de quem não tem mais nada a esconder e a delicadeza de quem aprendeu a amar o próprio caminho, O Menino da Cumeeira é um livro sobre raízes e asas — sobre o Brasil profundo que forma os homens e sobre a coragem silenciosa de ser quem se é, mesmo quando o mundo inteiro aponta o dedo.