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TRÊS MARINHEIROS - VIAJANTES NO MAR DO TEMPO - FICÇÃO METAFÍSICA EM PORTUGUÊS - BREDEVOORT VAN DEN BERG
UMA NOVELA METAFÍSICA SOBRE O TEMPO E A MEMÓRIA
«Três Marinheiros» é um romance que respira a mesma água salgada ao longo de oito séculos. Bredevoort van den Berg acompanha o rasto de três presenças que insistem em regressar, não como dogma, mas como uma teimosia íntima que o oceano parece conhecer melhor do que as próprias personagens. O livro desloca‑se da Coreia de 1949 para o Pacífico da Segunda Guerra, recua até à costa bretã do século XV e projecta‑se depois no silêncio estelar do século XXII, sem nunca largar a sensação física de estarmos dentro de um barco, com o convés a vibrar sob os pés e a linha do horizonte sempre em fuga.
Não se trata de uma sucessão de vidas, mas de uma única memória partida em estilhaços que o mar devolve devagar. Em cada época há três marinheiros que não se lembram um do outro e que, ainda assim, partilham objectos, sonhos e um compasso de espera comum. O resultado é uma leitura que apela tanto a quem procura uma narrativa de aventura marítima quanto a quem persegue as perguntas mais fundas sobre destino, herança e a forma como aquilo que perdemos continua a viajar ao nosso lado.
«O barco sem nome jazia no porto de Yokohama como uma velha criatura marinha a descansar antes da matança. O casco afundado na água, os conveses imóveis, os mastros nus contra a luz cinzenta da manhã que rompia as nuvens, aquela hora de crepúsculo entre a noite e a madrugada em que o mundo suspende a respiração e a fronteira entre a realidade e o sonho se esboroa como a névoa a deslizar sobre a água. A água produzia um ruído húmido e esfomeado, um ruído de mandíbulas a abrirem‑se que se propagava pelo ferro.
Apenas números identificavam o barco, de um branco desbotado sobre as manchas de ferrugem, algarismos que nada significavam para o olho que os lia, ali postos só porque alguém, algures, decidira que tudo devia ter um nome, mesmo que o mar não entenda os nomes que as pessoas dão. O grande oceano primordial não se importava. O mar falava a sua própria língua, uma língua sem substantivos, só com verbos: quebrar, engolir, transportar, esquecer. O mar não precisava de nomes; conhecia as coisas pelo peso, pelo movimento, pela sua transitoriedade.
Charley estava no cais, as mãos enterradas nos bolsos do casaco, a olhar para os números. Também eles um dia se apagariam, como a tinta, como o seu próprio nome, como tudo o que as pessoas tocam e julgam possuir. A manhã estava suficientemente fria para formar nuvens de hálito, pequenas brumas expelidas da boca que depois se dissolviam no nada. Observava‑as, a maneira como a própria vida se tornava visível por um instante no ar gelado e logo desaparecia. A morte como uma nuvem de hálito a dissolver‑se na luz da manhã, a evaporar‑se no nada.»